terça-feira, 8 de julho de 2014

A lesão do Neymar e considerações com referências científicas


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Algumas considerações com referências científicas sobre a lesão sofrida pelo Neymar Júnior durante o jogo Brasil X Colômbia pelas Quartas-de-Final da Copa do Mundo da Fifa 2014 no Brasil.
1) A fratura do processo transverso de vértebras lombares não é tão rara, mas muitas vezes é negligenciada.A lesão sofrida pelo jogador Neymar é comum quando se sofre um trauma violento na coluna lombar. Na verdade, das fraturas possíveis na vértebra, ela é a menos grave, e costuma se resolver sem sequelas após 4 a 8 semanas, contanto que seja tratada adequadamente. O problema é quando o paciente procura um médico e ele não desconfia dessa fratura, não solicita a Tomografia Computadorizada, e libera o paciente para voltar às atividades de casa, trabalho e esporte. Ou quando procura um fisioterapeuta que negligencia a possibilidade dessa fratura e realiza manobras bruscas na coluna lombar desse paciente. Em casos de histórico de trauma na coluna associada a dor persistente, existe a possibilidade de fratura. E mais um detalhe: a fratura do processo transverso de vértebra lombar é indicativo de que podem haver outras lesões associadas (Brynin e Gardiner, 2001; Xia et al, 2013).
2) A fratura do Neymar não ocorreu pelo trauma direto, mas pela contração dos músculos da coluna.Diferente do que se possa pensar, não foi o impacto do joelho do jogador colombiano sobre a coluna do Neymar que ocasionou a fratura do processo transverso esquerdo de L3 (terceira vértebral lombar), mas sim a força de tração exercida pelos músculos, principalmente o Transverso do Abdome (TrA) e o Quadrado Lombar (QL). Antigamente se pensava que o músculo psoas tinha papel importante sobre essa lesão, mas foi visto que o local mais comum da fratura (a ponta do processo transverso) é incompatível com a linha de ação desse músculo. Os músculos TrA e o QL se inserem na fáscia toracolombar, a qual se insere nos processos transversos e ligamentos intertransversais. A linha de ação do TrA é horizontal para fora, enquanto a do QL é oblíqua em dois sentidos: para cima e para fora, para baixo e para fora (Figura 1. Barker et al, 2007). O músculo que tem a linha de ação comprovadamente mais efetiva para provocar a fratura do processo transverso das vértebras lombares é o TrA. E as pesquisas comprovam que ele é capaz de exercer força suficiente para provocar a fratura do processo transverso de vértebras lombares, como aconteceu no caso de Neymar (Barker et al, 2007; 2010).
3) A lesão poderia ser pior, se Neymar não tivesse musculatura de atleta.No momento do impacto do joelho do colombiano sobre a coluna do Neymar, a reação dele foi uma contração muito rápida dos músculos locais, particularmente o TrA esquerdo, o que ocasionou a fratura já citada. Mas essa contração também serviu para proteger os órgãos do abdome, particularmente o rim esquerdo, os ureteres e o baço. Esse tipo de lesão secundária acontece em 55,7% dos casos em que ocorre fratura isolada do processo transverso de vértebra lombar, como foi o caso do Neymar. Uma lesão visceral agravaria o quadro e poderia prolongar a sua recuperação. A explicação para ele não ter machucado as vísceras é que, por ser atleta de alto nível, sua musculatura tem uma resposta mais rápida e mais forte do que a população geral, o que o protegeu de uma lesão mais grave (Brynin e Gardiner, 2001; Xia et al, 2013.
4) A recuperação exige cuidados especiais.Em lesões isoladas de processo transverso de vértebra lombar, o tempo médio para voltar a andar é de 16 dias; após 2 meses normalmente já se tem voltado a todas as atividades sem dor e sem sequelas. Mas alguns cuidados são necessários. Durante o período em que o osso não está consolidado, não se deve movimentar a região, sob o risco de interferir e retardar o processo de cicatrização óssea. Por isso que nessa fase orienta-se o uso de cinta ou colete abdominal, de modo que a musculatura não seja solicitada para manter a estabilidade lombopélvica. Esses pacientes não devem permanecer muito tempo em repouso no leito, mas devem andar assim que não sentirem dor (ou dor mínima) ao movimento. A lesão muscular deve ser tratada precocemente, pois ela pode gerar muitas aderências, principalmente se a imobilização for prolongada. A manipulação com thrust articular é contraindicada enquanto não houver consolidação óssea comprovada, mas a mobilização dos tecidos moles associada aos recursos termoterápicos pode acelerar a recuperação e o retorno às atividades, que deve acontecer de maneira natural, sem forçar. O tempo médio de retorno ao esporte para atletas de futebol que sofrem esse tipo de lesão isolada é de 3,5 semanas (Tewes et, 1995).
Referências:
Barker, P. J. et al. The middle layer of lumbar fascia and attachments to lumbar transverse processes: implications for segmental control and fracture. European Spine Journal. 2007, 16:2232-2237.
Barker, P. J. et al. The middle layer of lumbar fascia can transmit tensile forces capable of fracturing the lumbar transverse processes: An experimental study. Clinical Biomechanics. 2010, 25:505–509.
Brynin, R.; Gardiner, L. Missed Lumbar Transverse Process Fractures in a High School Football Player. Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics. 2001, 24(2):123-126.
Tewes, D. P. et al. Lumbar Transverse Process Fractures in Professional Footbal Players. 1995, 23(4):507-509.
Xia, T. et al. Non-spinalYassociated injuries with lumbar transverse process fractures: Influence of segments, amount, and concomitant vertebral fractures. Journal of Trauma and Acute Care Surgery, 2013, 74(4):1108-1111.
Texto produzido pelo Dr. Jailson Ferreira [CREFITO 50.901-F], Fisioterapeuta do Instituto de Tratamento da Coluna Vertebral (ITC Vertebral).

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